Saindo da crise

Entre o pessimismo e o otimismo tentamos achar ações produtivas e conselhos acionáveis[1]. Entre a dura realidade e os conselhos de empreendedores bem-sucedidos, está a maioria de nós procurando uma resposta para atravessar a crise. E o que nós vemos? Desemprego, inflação, inadimplência, diminuição da atividade econômica, juros estratosféricos e crise política! Difícil ser otimista com um quadro desses! E a grande angustiante pergunta é: o que eu devo fazer?
Antes que o desânimo aumente, vamos aos conselhos otimistas de alguns líderes durante um encontro na Endeavor[1]. Investir em inovação no momento da crise para sair mais forte. Montar equipes com a cultura de solução de problemas. Aproveitar os talentos incríveis que ficam disponíveis durante uma crise. Intensificar a capacidade criativa, que aparece nos momentos de crise. A sociedade civil deve pressionar para solucionar o maior desafio do Brasil – o processo político. Inovar com base no consumidor. Adaptar-se à situação, reinventar-se olhando para o cliente[2].

Vejamos uma situação específica. Os seus clientes são empresas e estão comprando menos. Estão cortando custos. Ou pior: você é o custo! Estão postergando investimentos. Estão demitindo. Sua empresa não consegue investir porque o dinheiro está caro (juros). Não tem capital de giro. O dinheiro está curto: os clientes atrasam pagamentos.

No contexto brasileiro, a produtividade do trabalho medida em PIB por pessoa é baixa[3]. A produtividade do trabalho projetada para 2015 é de U$ 28 / pessoa, ao passo que nos EUA é de U$ 117/ pessoa e na Alemanha é U$ 87 / pessoa. O Brasil gera menos riqueza que os países desenvolvidos. Nesse quesito estamos atrás da Argentina (U$ 38), Venezuela (U$ 41), Uruguai (U$ 44) e Chile (U$ 56).

É esperado que os países aumentem a produtividade ano após ano. Mas o crescimento da produtividade brasileira vem caindo[4]. Cresceu 1,8% em 2013, 0,3% em 2014 e projeta uma diminuição de 2,0% na produtividade em 2015.   Em situação melhor está a China[5], que continua tendo aumentos expressivos de produtividade, mas em ritmo decrescente (7,3%, 7,0% e 6,7%, respectivamente em 2013, 2014 e 2015). Países desenvolvidos possuem uma produtividade alta e, por isso, o aumento de produtividade é mais discreto. Nesses mesmos três anos, os EUA diminuem o ritmo de crescimento da produtividade (1,2%, 0,7% e 0,6%) e a Alemanha aumenta o ritmo de crescimento (-0,5%, 0,7% e 1,1%). Para que não reste dúvida,  China, EUA e Alemanha estão aumentando a produtividade ano após ano e terão aumento de produtividade em 2015. O Brasil terá um decréscimo de produtividade (-2%).

Grafico barraEnquanto isso, em 2015, os aumentos de produtividade são: 0,8% nos países maduros, 2,0% no mundo como um todo e 2,9% nos países emergentes.

 

Levemos em conta outras variáveis que compõem o fator de produtividade total[6], além do trabalho. O fator de produtividade total também leva em conta as melhorias na eficiência e na tecnologia/inovação.

Em 2014, a produtividade total mundial caiu (-2,3%) mais que todos esses países citados. O uso dos recursos foi menos eficiente que esses outros países, à exceção de Venezuela (-9,1%) e da Argentina (-5,0%).

Aconselham-nos a inovar, montar equipes de alto desempenho, captar talentos e nos reinventarmos! Cá entre nós, estamos lutando para cortar custos e corremos o risco de perder nossos talentos. Não iremos inventar agora o que deveríamos ter inventado antes. Se as melhorias tivessem sido feitas antes da crise, estaríamos mais preparados para a crise.

Entre esses conselhos otimistas e o pessimismo, há outras perspectivas. Os clientes continuarão consumindo, continuarão comprando. Comprarão menos, é verdade. Ficarão mais seletivos, mas continuarão comprando de alguém.

A nós cabe fazer o simples antes de por em prática conselhos pouco práticos. Para gerar mais riqueza: trabalhar mais. Para aumentar a produtividade: trabalhar melhor. Para aumentar a renda, aumentar o valor ao cliente. Usar mais eficientemente os recursos. Diminuir estoques, liberando dinheiro para o caixa da empresa. Melhorar o atendimento ao cliente.

Ficamos menos pessimistas quando os conselhos são acionáveis do que acreditar que podemos intensificar a criatividade. O aumento da produtividade não virá de um investimento de última hora em tecnologia e inovação. Esses investimentos se estivessem em andamento antes da crise, poderiam ser finalizados dentro da crise. É difícil acreditar que possamos começar a investir em tecnologia/inovação agora que o dinheiro está escasso e caro.

O que podemos fazer então? Fazer primeiro as coisas simples!

Com menos pedidos é possível prestar mais atenção nos clientes. Também, a ociosidade das pessoas poderá ser bem aproveitada. Verifique os fluxos dos processos e elimine tudo que não agrega valor. Isso implicará na redução de custos. Ao eliminar o que atrapalha o fluxo, os tempos de resposta diminuem e, normalmente, o capital de giro aumenta.  Promova ações em equipe para reduzir os desperdícios.[7] Tente preservar os talentos. Quando não for possível contratar capacitações, proporcione treinamentos cruzados, utilizando a inteligência existente na empresa. A menos que seja muito tarde para fazê-lo.

O crescimento da produtividade do país depende do aumento da produtividade do trabalho. Para aumentar a riqueza – ou diminuir a pobreza – é necessário aumentar a eficiência de cada empresa, de cada organização, incluindo as instituições públicas – poderes executivo, legislativo e judiciário.


[1] Conselhos acionáveis possuem uma razoável clareza sobre como, o que, quando fazer.

[2] https://endeavor.org.br/crise-destaques-ceo-summit/

[3] Fonte: The Conference Board Total Economy  (critério LP-person EKS).

[4] Fonte: The Conference Board Total Economy  (critério LP-person GK).

[5] A China tem uma produtividade do trabalho um pouco menor que o Brasil (U$ 23/pessoa em 2015)

[6] Total factor productivity (TFD). Eficiência: consome menos recursos para uma determinada produção. Tecnologia/inovação: a produção é maior para um determinado consumo de recursos.

[7] Explicações para colocar em ação estas medidas estão presentes no livro “Mudança: uma crônica  sobre transformação e logística lean”. Nele estão presentes definições sobre o que é fluxo, desperdício, tempo de resposta, relação processos físicos/ganhos financeiros, valor, preço, custo, cash-to-cash e barreiras às mudanças.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *